Tabu 2


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Foto: Roberta Sant’anna

               Cinco e vinte, o ônibus para, e ele entra, o clima fica tenso, e no ar paira uma onda de pânico misturada com ânsia, e uma vontade louca de sair correndo.

           Mais um dia, não adianta criar outras estratégias, nunca a situação será a mesma, afinal, não é possível controlar todas as circunstâncias, os fatores se alteram, talvez pessoas saiam mais cedo do trabalho e peguem outro ônibus, talvez o ônibus não lote, talvez o lugar ao meu lado fique vago, talvez, talvez… Não adianta tentar prever, o máximo que se consegue é rezar, e pedir que sobre lugar só lá atrás pra ele sentar.

          E todo dia é assim, e todo dia resta a dúvida, e a ansiedade para o acontecimento, tá chegando, próxima parada ele sobe, será que virá? Será que não? Quase implorando pra que a moça de rosa sente no banco da frente. – Senta moça, senta!

           Hoje passou, ufaaa, tinha lugar lá atrás, mas mesmo assim, o cheiro de sovaco misturado com Tabu (perfume barato de cheiro duvidoso), deixou um rastro que faz com que a barriga dê loopings, e os arrepios subam a espinha, é uma grande maldade, quase um preconceito, eu sei, já pensei em alternativas para falar, dar uma dica quem sabe… Todo mundo trabalha, e corre o risco de ter o desodorante vencido no fim do dia, mas Deus, porque colocar Tabu em cima de tudo isso?

        Mas não julguemos, nós mesmos não sabemos como nos livrar dos nossos TABUS, e não venha com rechaçadas dissimuladas de que pra você nada é TABU, que tudo é encarado com naturalidade, todo mundo sabe onde o nó aperta, e onde dói mais, quando algo que procuramos não remexer é colocado em pauta.

      Em tempos de difusão de pensamentos liberais, e exorcização de preconceitos, admitir que ainda existem TABUS presentes em nossas casas, em nosso trabalho, em nossas mentes, é perturbador, e precisamos cada vez mais libertar nossas ideias e encarar estes desafios impostos… Seja pela nossa criação, nossas convivências, nossas trajetórias ou por nós mesmos, sentindo a real liberdade de conviver em harmonia com nossos traumas.

        Porque o cheiro de sovaco eu até aguento, mas jogar TABU por cima? É demais amigo, não da pra te defender!


Camila Amaral

Sobre Camila Amaral

Não tenho uma história bonita pra contar, de que comecei a escrever poesia com nove anos, ou que respiro porque escrevo. Sempre gostei muito de ler, e sempre gostei muito de contar histórias, mas escrever, escrever mesmo, só se tornou recorrente quando me prontifiquei a materializar esse projeto, que hoje é meu, mas também é das minhas amigas, que tanto insistiram e me fizeram prometer que ele existiria. Mas vejo, nesse pouco tempo, que comecei a passar minhas ideias e histórias para o papel, como isso tem me feito bem, e tem me ajudado nessa busca diária de me tornar um ser humano melhor, mais cheia de alma, e mais cheia de calma, percebo como isso tem me feito enxergar o que antes não via, e observar o comportamento das pessoas infinitas vezes mais que antes. Meus escritos sempre tem muito de mim, mas também tem muito do que eu observo, ouço, aprecio e absorvo por aí, um pouco fruto da realidade, um tanto fruto da imaginação. Designer de Moda por formação, sempre pronta pra me reinventar e começar de novo, graças a Deus ideias e sonhos não tem prazo de validade, e nem limite de utilização. Sou privilegiada pelas muitas “famílias” que tenho e que ganhei ao longo dos meus vinte e poucos, me sinto especial quando percebo o tanto de gente incrível me rodeia, e são esses seres mágicos, os lugares, os cheiros, gostos, os sabores, as dores, e as alegrias, os sonhos e as realizações, o dia-a-dia e o excepcional que me inspiram e servem como fonte infinita para escrever e contar pra vocês um pouquinho de como eu enxergo esse mundão.


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