Saco cheio


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Foto: Felipe Rapaki

            Tem uma hora que o saco enche, você junta, junta tralha, uma hora não cabe mais, em um final de semana se produz tanto lixo que uma hora não cabe mais, você coloca tantas sacolas no puxa saco, ihh não cabe mais, vai deixando a roupa no cesto, é hora de lavar, não entra mais.

            Com as emoções e os sentimentos não seria diferente, você vai enchendo seu coração com restos de sensações ruins, com resquícios de sentimentos extintos, com retalhos de mágoas que arrecadamos pelo caminho, vai enchendo o coração de lixos emocionais desnecessários, que uma hora ele enche, como o saco, como o cesto, e é preciso fazer a escolha de jogá-los fora, é preciso liberar espaço para juntar mais tralha e guardar mais saquinhos.

            Sei como é difícil, abrir mão das tralhas, sempre tentamos encontrar utilidade para coisas inúteis só para não ter que se desfazer delas, defender argumentos quando questionados sobre o porque de guardá-las, e concluir que abrir mão é o certo a fazer, e como fazemos com as tralhas, fazemos com o coração, guardando nele todos os desprazeres passados. Mas é preciso desapegar das quinquilharias, percebendo que acumulá-las não as tornarão úteis algum dia, apenas ocuparão espaço desnecessário por tempo indeterminado.

            E há ainda sentimentos que não devem durar guardados nem um final de semana, como o lixo devem ser descartados assim que enchem o saco, assim que se tornam prescindíveis, devem ser mandados para onde possam armazená-los, onde possam dar o destino mais apropriado.

            Outros como as sacolas do puxa saco muitas vezes nem precisam ser descartados, apenas devem ser organizados da maneira correta, pois assim abrem mais espaço para guardar mais saquinhos, porque assim como eles chegam, se vão, levados por pessoas, ou levando o lixo que se juntou.

            As roupas ao estarem sujas são lavadas, alguns sentimentos também sujam, às vezes mexemos com tinta e manchamos uma peça bonita, mas você se empenha para limpá-la pois gosta da peça, não quer descartá-la, às vezes atitudes erradas abalam sentimentos, e eles precisam ser lavados como as roupas, lavados com amor, desencardidos  com carinho, secos com atenção, para que não tenham que virar lixo, e serem descartados nos sacos do fim do final de semana.

            Devemos estar sempre atentos as nossas emoções, selecionando os sentimentos que devem ser guardados, aqueles que só precisam ser organizados, aqueles que definitivamente devem ser descartados, e os que só precisam de uma boa lavada, para que nosso saco/coração não se encha do que é desnecessário e cause sofrimento, nos deixando cheios de lixos emocionais irrelevantes, nos deixando de saco cheio.


Camila Amaral

Sobre Camila Amaral

Não tenho uma história bonita pra contar, de que comecei a escrever poesia com nove anos, ou que respiro porque escrevo. Sempre gostei muito de ler, e sempre gostei muito de contar histórias, mas escrever, escrever mesmo, só se tornou recorrente quando me prontifiquei a materializar esse projeto, que hoje é meu, mas também é das minhas amigas, que tanto insistiram e me fizeram prometer que ele existiria. Mas vejo, nesse pouco tempo, que comecei a passar minhas ideias e histórias para o papel, como isso tem me feito bem, e tem me ajudado nessa busca diária de me tornar um ser humano melhor, mais cheia de alma, e mais cheia de calma, percebo como isso tem me feito enxergar o que antes não via, e observar o comportamento das pessoas infinitas vezes mais que antes. Meus escritos sempre tem muito de mim, mas também tem muito do que eu observo, ouço, aprecio e absorvo por aí, um pouco fruto da realidade, um tanto fruto da imaginação. Designer de Moda por formação, sempre pronta pra me reinventar e começar de novo, graças a Deus ideias e sonhos não tem prazo de validade, e nem limite de utilização. Sou privilegiada pelas muitas “famílias” que tenho e que ganhei ao longo dos meus vinte e poucos, me sinto especial quando percebo o tanto de gente incrível me rodeia, e são esses seres mágicos, os lugares, os cheiros, gostos, os sabores, as dores, e as alegrias, os sonhos e as realizações, o dia-a-dia e o excepcional que me inspiram e servem como fonte infinita para escrever e contar pra vocês um pouquinho de como eu enxergo esse mundão.

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