Pelo direito de não ser buzinada


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Foto: Roberta Sant’anna

          Descendo a rua, bip bip, buzina, atravessando a avenida, bip bip, buzina com direito a cabeça pra fora do vidro acompanhado de “gostosaaa”, esperando o ônibus, bip bip, buzina do motorista do caminhão que passa.

Não, eu não quero ser buzinada. Este é o tipo de assunto infindável, que sempre chega cheio de estigmas, de paradoxos novos e atuais, machismo, direitos da mulher, atentado ao pudor, desrespeito, e em defesa dele surgem, é elogio, admiração, reconhecimento de beleza, alegações levianas para justificar a afronta.

            Particularmente esta é uma atitude masculina que me incomoda profundamente, me incomoda muito, não gosto de ser buzinada, e esta opinião é minha, talvez algumas mulheres gostem, talvez eleve sua autoestima, talvez entendam como um elogio, mas toda vez que sou buzinada, minha vontade é de levantar o braço e fazer uma banana, mandar se f#@%$ e fazer parar e mandar falar na minha cara, mas sempre contenho meus instintos e apenas faço de conta que não é comigo.

            E sabe que isso é o que me deixa pior, por parecer que nós mulheres, temos culpa de estarmos sendo buzinadas, como se estivéssemos pedindo a buzina por estar andando na calçada, ou por estar atravessando a rua, ou ainda paradas esperando o ônibus, e quando me dou conta deste absurdo, vejo o quanto a cultura machista ainda exerce um poder soberano, fazendo-nos aceitar caladas e ainda jogando a responsabilidade para nós. E pior, não existe um perfil de homem que buzine, já vi homens humildes, homens esclarecidos, homens velho, novos, casados e solteiros, cá entre nós, admitam homens, todos vocês já deram uma buzinadinha.

            Se houvesse um pouco de coerência, e eles analisassem por outra perspectiva, imaginassem que aquela que é buzinada é filha de alguém, esposa de alguém, namorada de alguém, irmã de alguém, e podia ser a “sua”, que tá aí buzinada, garanto que daí doeria neles, se lembrassem que “suas” mulheres também sofrem por aí, se tivessem discernimento, talvez pensassem duas vezes antes de tocar a mão na buzina, desconsiderando toda a história por trás da mulher buzinada.

            O fato é que ainda estamos longe de ter este discernimento coletivo da ala masculina espalhado por aí, ainda estamos suscetíveis aos machismos que se acumulam por todos os lados, e que aparecem até nos homens que menos esperamos, como nós, eles também foram condicionados a esta realidade, porém estamos batalhando para sermos iguais, e precisamos que eles batalhem para nos tratar com igualdade, espero ansiosamente o dia que vou poder usufruir do meu direito de não querer ser buzinada, apenas.


Camila Amaral

Sobre Camila Amaral

Não tenho uma história bonita pra contar, de que comecei a escrever poesia com nove anos, ou que respiro porque escrevo. Sempre gostei muito de ler, e sempre gostei muito de contar histórias, mas escrever, escrever mesmo, só se tornou recorrente quando me prontifiquei a materializar esse projeto, que hoje é meu, mas também é das minhas amigas, que tanto insistiram e me fizeram prometer que ele existiria. Mas vejo, nesse pouco tempo, que comecei a passar minhas ideias e histórias para o papel, como isso tem me feito bem, e tem me ajudado nessa busca diária de me tornar um ser humano melhor, mais cheia de alma, e mais cheia de calma, percebo como isso tem me feito enxergar o que antes não via, e observar o comportamento das pessoas infinitas vezes mais que antes. Meus escritos sempre tem muito de mim, mas também tem muito do que eu observo, ouço, aprecio e absorvo por aí, um pouco fruto da realidade, um tanto fruto da imaginação. Designer de Moda por formação, sempre pronta pra me reinventar e começar de novo, graças a Deus ideias e sonhos não tem prazo de validade, e nem limite de utilização. Sou privilegiada pelas muitas “famílias” que tenho e que ganhei ao longo dos meus vinte e poucos, me sinto especial quando percebo o tanto de gente incrível me rodeia, e são esses seres mágicos, os lugares, os cheiros, gostos, os sabores, as dores, e as alegrias, os sonhos e as realizações, o dia-a-dia e o excepcional que me inspiram e servem como fonte infinita para escrever e contar pra vocês um pouquinho de como eu enxergo esse mundão.

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