O dia em que meu irmão cresceu 2


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Foto: Caetano Amaral

Foi assim bem de repente, ele me contou que tava pensando em comprar um terreno. Oi? Cadê meu irmãozinho? Aquele sem boca pra nada, cadê aquele magrelo que me incomodava? Onde foi parar? Quem abduziu? Choque de realidade, meu irmão cresceu e eu nem vi.

São os prós e os contras de morar longe, de repente o tempo passou e eu não estava lá, eu não vi a barba dele nascer, eu não o vi ficar mais alto que eu, não vi ele passar de desmilinguido pra fortinho, não vi ele fazer um ano de namoro, não vi ele virar homem, e isso me dói muito, porque eu não vi ele passar de desinteressado para responsável, de estagiário para efetivo, não vi ele passar do basquete para o futebol, e nem ganhar o campeonato de skate.

E além de não ver, eu também não estive lá quando ele precisou de um conselho, nem quando chegou bêbado da balada, não estava lá fazendo um nescau domingo de manhã, e nem jogada ao seu lado no sofá em um dia de chuva, não cuidei quando ele ficou doente, e nem fiz o curativo no joelho ralado, eu não estava, minha presença não se fez presente enquanto ele crescia.

Mas quando o vi, homem feito, resolvendo problemas pra mim, me fazendo cobranças, completando 3 anos de namoro, passando no vestibular, escolhendo uma profissão, viajando com os amigos, eu ví também que ele conseguiu tudo sem mim, e percebi  que meu amor continuou incondicional, e que ele sente o mesmo por mim, que nossa ligação na verdade nunca esteve na presença, nossa ligação sempre esteve na distância, nunca fomos de falar muito, nos entendíamos melhor no silêncio, também nunca fomos de assistir os mesmo programas, sempre respeitamos o gosto de cada um.

Somos cúmplices da nossa existência, e não necessitamos conviver no dia a dia para confirmar nosso amor, nossa trajetória nos afastou, e hoje vejo que foi esta distância que nos fortaleceu, foi essa distância que engrandeceu essa irmandade, esse é nosso jeito de amar, nos respeitamos e queremos bem, ele é meu ERMÃO, e pelas rumos loucos dessa vida eu não vi o dia que ele cresceu.


Camila Amaral

Sobre Camila Amaral

Não tenho uma história bonita pra contar, de que comecei a escrever poesia com nove anos, ou que respiro porque escrevo. Sempre gostei muito de ler, e sempre gostei muito de contar histórias, mas escrever, escrever mesmo, só se tornou recorrente quando me prontifiquei a materializar esse projeto, que hoje é meu, mas também é das minhas amigas, que tanto insistiram e me fizeram prometer que ele existiria. Mas vejo, nesse pouco tempo, que comecei a passar minhas ideias e histórias para o papel, como isso tem me feito bem, e tem me ajudado nessa busca diária de me tornar um ser humano melhor, mais cheia de alma, e mais cheia de calma, percebo como isso tem me feito enxergar o que antes não via, e observar o comportamento das pessoas infinitas vezes mais que antes. Meus escritos sempre tem muito de mim, mas também tem muito do que eu observo, ouço, aprecio e absorvo por aí, um pouco fruto da realidade, um tanto fruto da imaginação. Designer de Moda por formação, sempre pronta pra me reinventar e começar de novo, graças a Deus ideias e sonhos não tem prazo de validade, e nem limite de utilização. Sou privilegiada pelas muitas “famílias” que tenho e que ganhei ao longo dos meus vinte e poucos, me sinto especial quando percebo o tanto de gente incrível me rodeia, e são esses seres mágicos, os lugares, os cheiros, gostos, os sabores, as dores, e as alegrias, os sonhos e as realizações, o dia-a-dia e o excepcional que me inspiram e servem como fonte infinita para escrever e contar pra vocês um pouquinho de como eu enxergo esse mundão.


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