De mala e cuia


        Foi assim, de uma hora pra outra, decidi partir, não havia motivos para ficar, tampouco perspectiva para a chegada, mas havia motivos para ir, para sair dali e rumar ao desconhecido. Alguns diziam que viam em mim coragem, eu achava que só havia medo, medo do que era igual, do permanente, medo de a vida não tomar um rumo diferente do que eu já conhecia, medo de os dias se repetirem insistentemente, e medo principalmente de me perder de mim, e me ver transformar em alguém moldado pelo que esperavam que eu fosse ali.

       Mas esse medo foi o estopim que me conduziu, me fez agir, tomar atitudes, e se tornou o divisor de águas em meio a uma vida calma e uma alma angustiada, me tirou da zona de conforto e me fez buscar algo que nem sabia o que era, foi surpreendente na mesma medida que foi assustador. Não saber o que me aguardava, não saber o que iria acontecer, mas ao mesmo tempo ter a certeza de que era preciso ir, sem olhar pra trás, sem arrependimento das coisas de que abriria mão, e com o coração aberto para as coisas que chegariam.

      Com a decisão tomada, era preciso arrumar a mala e decidir o que eu levaria, pois nesta jornada só poderia levar comigo o que fosse realmente importante, na minha mala não caberiam supérfluos, não era possível levar mais do que eu aguentaria carregar sozinha. Eu precisava decidir o que realmente tinha valor, e que contribuiria para construir o que eu queria me tornar.

     Levei minhas amizades verdadeiras, levei meu sorriso mais sincero, juntei toda a humildade que achei, empacotei minha insegurança para deixar na casa da minha vó, lá eu poderia usá-la, peguei minhas histórias e guardei no fundo da mala, elas seriam úteis lá na frente, as desilusões joguei fora, elas não me acompanhariam nessa nova fase, fiz doação das incertezas, e coloquei no nécessaire a autoestima, juntei um punhado de determinação e pus no bolsinho, abri mão das insatisfações e dobrei a generosidade para que ela não amassasse, catei meu pote de felicidade, que era grande, mas teria lugar.

      De mala pronta, só faltava minha cuia, pra que eu não esquecesse nunca de onde vim, e para que depois de cevado, o mate sempre aquietasse minha saudade, era preciso ir, com o que havia de melhor em mim. Eu fui de mala e cuia, mas na mala foi só o que era essencial.


Camila Amaral

Sobre Camila Amaral

Não tenho uma história bonita pra contar, de que comecei a escrever poesia com nove anos, ou que respiro porque escrevo. Sempre gostei muito de ler, e sempre gostei muito de contar histórias, mas escrever, escrever mesmo, só se tornou recorrente quando me prontifiquei a materializar esse projeto, que hoje é meu, mas também é das minhas amigas, que tanto insistiram e me fizeram prometer que ele existiria. Mas vejo, nesse pouco tempo, que comecei a passar minhas ideias e histórias para o papel, como isso tem me feito bem, e tem me ajudado nessa busca diária de me tornar um ser humano melhor, mais cheia de alma, e mais cheia de calma, percebo como isso tem me feito enxergar o que antes não via, e observar o comportamento das pessoas infinitas vezes mais que antes. Meus escritos sempre tem muito de mim, mas também tem muito do que eu observo, ouço, aprecio e absorvo por aí, um pouco fruto da realidade, um tanto fruto da imaginação. Designer de Moda por formação, sempre pronta pra me reinventar e começar de novo, graças a Deus ideias e sonhos não tem prazo de validade, e nem limite de utilização. Sou privilegiada pelas muitas “famílias” que tenho e que ganhei ao longo dos meus vinte e poucos, me sinto especial quando percebo o tanto de gente incrível me rodeia, e são esses seres mágicos, os lugares, os cheiros, gostos, os sabores, as dores, e as alegrias, os sonhos e as realizações, o dia-a-dia e o excepcional que me inspiram e servem como fonte infinita para escrever e contar pra vocês um pouquinho de como eu enxergo esse mundão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *