Caixa Completa 6


         lápis

         Sempre tive minha caixa de lápis de cor, e minha caixa era bem colorida, eu tinha todas as cores que eu acreditava precisar, tinha o verde da esperança, tinha o amarelo que sempre trazia sol nos dias de chuva, tinha o laranja vibrante das amizades, tinha a tranqüilidade azul da família, tinha o rosa shock dos meus estudos, pintava de branco meus momentos de paz, e apertava no preto nas horas de angústia. Era uma bela caixa.

            Mas eu nunca havia percebido a falta do vermelho, aquele que acompanha a paixão, nunca reparei, pois ele não me fazia falta, eu adorava minhas cores, não precisava de mais uma. Ledo engano, eu achava que não precisava. Nunca havia pintado com o vermelho, e tu chegou, me trazendo todas as nuances dele, e com todos esses tons nasceu minha perdição, eu estava hipnotizada pela doçura do carmim.

            Tu chegou trazendo essa cor nova, e tantas outras que eu desconhecia, chegou pra perturbar a ordem decorada da minha paleta, e mudar de lugar os lápis na minha caixa, trouxe o marinho das noites estreladas, e o verde musgo das paisagens da serra, trouxe a simplicidade do lilás, e o beijo fresco da cor pêssego, e depois de experimentar todas estas cores, nunca mais bastariam só aquelas da minha caixa, nossas cores juntas, estas sim formavam uma caixa completa.

            Mas como poderíamos dividir para sempre nossas cores, se éramos dois, nem sempre pintaríamos o mesmo desenho, eu poderia te emprestar de vez enquanto meu azul, assim como pegaria o teu lilás vez ou outra, mas cada um tinha sua caixa, e era preciso que completássemos cada um a sua, para podermos usufruir juntos dos momentos que usaríamos o vermelho, pois essa, sem dúvida, era uma cor para dividir sempre.

            Só que cores não são fáceis de compartilhar, por vezes tu quis passar preto em cima da minha alegria rosa clara, assim como eu passei ciúme roxo em cima das tuas amizades coloridas, e nesta mescla de cores, discordamos e acabamos fazendo misturas não harmoniosas de coloração, trocamos um conjunto de cores firmes, por tons duvidosos, para pintar sentimentos que precisavam de certeza.

            Mas precisávamos conhecer outras cores, precisávamos nos encontrar para perceber as matizes que nos faltavam, precisávamos misturar nossos lápis para entender que as tonalidades são infinitas, e é possível que nunca tenhamos a chance de provar todas elas, mas é assim, cada pessoa que chega te apresenta cores novas, deixando nossas possibilidades mais infinitas.

            E desta maneira tu me ensinou onde conseguir os lápis que me faltavam, e eu te mostrei onde pegar as nuances que tu não tinha, agora tínhamos caixas mais completas, ainda adoramos trocar os lápis, pegar cores novas emprestadas, apresentar novos tons, mas principalmente dividir o vermelho, e todos seus surtuns apaixonantes, mas temos, cada um uma caixa, porque todos merecem ter todas as cores.

 


Camila Amaral

Sobre Camila Amaral

Não tenho uma história bonita pra contar, de que comecei a escrever poesia com nove anos, ou que respiro porque escrevo. Sempre gostei muito de ler, e sempre gostei muito de contar histórias, mas escrever, escrever mesmo, só se tornou recorrente quando me prontifiquei a materializar esse projeto, que hoje é meu, mas também é das minhas amigas, que tanto insistiram e me fizeram prometer que ele existiria. Mas vejo, nesse pouco tempo, que comecei a passar minhas ideias e histórias para o papel, como isso tem me feito bem, e tem me ajudado nessa busca diária de me tornar um ser humano melhor, mais cheia de alma, e mais cheia de calma, percebo como isso tem me feito enxergar o que antes não via, e observar o comportamento das pessoas infinitas vezes mais que antes. Meus escritos sempre tem muito de mim, mas também tem muito do que eu observo, ouço, aprecio e absorvo por aí, um pouco fruto da realidade, um tanto fruto da imaginação. Designer de Moda por formação, sempre pronta pra me reinventar e começar de novo, graças a Deus ideias e sonhos não tem prazo de validade, e nem limite de utilização. Sou privilegiada pelas muitas “famílias” que tenho e que ganhei ao longo dos meus vinte e poucos, me sinto especial quando percebo o tanto de gente incrível me rodeia, e são esses seres mágicos, os lugares, os cheiros, gostos, os sabores, as dores, e as alegrias, os sonhos e as realizações, o dia-a-dia e o excepcional que me inspiram e servem como fonte infinita para escrever e contar pra vocês um pouquinho de como eu enxergo esse mundão.


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