Cabelo molhado 1


Lá pelos meus doze, treze anos, minha rebeldia era sair de cabelo molhado nas manhãs frias das terras gaúchas, e caminhar até a escola, não sem antes ouvir todas as rechaçadas do meu pai, raivoso, por saber que aquilo resultaria em muito antinflamatório e bezetacil para curar a amigdalite e a otite que aquela rebelião desencadearia.

Eu sei, ele estava certo, e não me perguntem porque cargas d’água, eu tinha que lavar as madeixas todas as manhãs, e com aquele cabelo beirando a cintura, logicamente nunca havia tempo hábil de secá-lo, então solucionava meu problema discordando das ordens do meu pai, e balançando meu cabelo semi encharcado de frente para o vento Minuano até a escola.

 

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O tempo passou, e claro que percebo hoje, a discrepância que é não ouvir nosso pai, mas é preciso tomar muita bezetacil para entender isso, só que as lições com o cabelo molhado não terminariam por ai, ainda havia mais um aprendizado a ser recebido.

Quando eu já adulta iniciei mais um curso universitário, de tantos que eu havia mudado de ideia, fui surpreendida por uma jovem mestra senhora encantadora de cabelos curtos, silhueta elegante e muito conhecimento além sala de aula para partilhar, e que sem sombra de dúvida compartilhou, e num desses dias ela repassou um ensinamento que vou levar para a vida: “- Nunca saia de cabelo molhado.”

Cabelo molhado é um momento íntimo, sem querer despertar pudores primitivos ou ideias de conservadorismo, mas acho que poucos merecem o privilégio dos meus cabelos molhados, poucos tem merecido ganhar esta liberdade de invadir meu mundo, de ganhar a chave para o meu labirinto.O cabelo molhado é permissivo, cabelo molhado é só pra quem ganhou a autonomia de me ver por inteira, cabelo molhado é para os amigos íntimos, para a família, para o namorado, cabelo molhado é para eu mesma usufruir deste momento de entrega, de deleite, de introspecção.

Sair de cabelo molhado causa amigdalas inflamadas, sair de cabelo molhado é expor para geral uma liberdade que ninguém te pediu, sair de cabelo molhado é subestimar a experiência dos cabelos molhados. Cabelos molhados são como segredos secretos, são só para alguns, devem ser guardados, e oferecidos só para os dignos de partilhar deles.

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Camila Amaral

Sobre Camila Amaral

Não tenho uma história bonita pra contar, de que comecei a escrever poesia com nove anos, ou que respiro porque escrevo. Sempre gostei muito de ler, e sempre gostei muito de contar histórias, mas escrever, escrever mesmo, só se tornou recorrente quando me prontifiquei a materializar esse projeto, que hoje é meu, mas também é das minhas amigas, que tanto insistiram e me fizeram prometer que ele existiria. Mas vejo, nesse pouco tempo, que comecei a passar minhas ideias e histórias para o papel, como isso tem me feito bem, e tem me ajudado nessa busca diária de me tornar um ser humano melhor, mais cheia de alma, e mais cheia de calma, percebo como isso tem me feito enxergar o que antes não via, e observar o comportamento das pessoas infinitas vezes mais que antes. Meus escritos sempre tem muito de mim, mas também tem muito do que eu observo, ouço, aprecio e absorvo por aí, um pouco fruto da realidade, um tanto fruto da imaginação. Designer de Moda por formação, sempre pronta pra me reinventar e começar de novo, graças a Deus ideias e sonhos não tem prazo de validade, e nem limite de utilização. Sou privilegiada pelas muitas “famílias” que tenho e que ganhei ao longo dos meus vinte e poucos, me sinto especial quando percebo o tanto de gente incrível me rodeia, e são esses seres mágicos, os lugares, os cheiros, gostos, os sabores, as dores, e as alegrias, os sonhos e as realizações, o dia-a-dia e o excepcional que me inspiram e servem como fonte infinita para escrever e contar pra vocês um pouquinho de como eu enxergo esse mundão.


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Um pensamento em “Cabelo molhado

  • Lauren da Silveira Cruz Ramos

    Adoro teus textos, sempre que posso dou uma espiadinha aqui, mas esse texto é especial, hoje desci na garagem pra pegar uma coisa no carro, estava com o cabelo molhado e refletindo sobre tudo que você escreveu. Simplesmente adorei…
    Acho que você deveria tentar publicar um livrinho por conta própria, você me lembra muito a Martha Medeiros.
    Parabéns pelo trabalho e por dividir sua sensibilidade e pensamentos. Beijos, feliz 2018.