A arte de lagartear


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Foto: Felipe Rapaki

         Domingo ocioso de inverno, aquele ventinho fresco soprando, o solzinho quente secando o orvalho da grama, junto a isso um despertar ressacado, meia dúzia de bergamotas, e o quociente não seria mais impecável, perfeito para lagartear.

         Lagartear para esclarecer é ficar curtindo um dia como o descrito acima, fazer a fotossíntese, trocar energias com o sol, e dessa combinação de fatores que resulta um dia perfeito para lagartear. Lagartear é uma arte difícil de ser praticada, pois até para não fazer nada é preciso iniciativa, optar pelo dia inerte, lagartear é o dolce far niente brasileiro, é a folga da indústria, é o dia guardado do adventista, é a segunda da tele-entrega, é o domingo do comércio, é o descanso do guerreiro. Lagartear é o fazer tudo, fazendo nada.

           Pode-se lagartear sozinho ou acompanhado, dos amigos ou do chimarrão, pode ser em uma canga na praia ou em uma rede no campo, e não por acaso lagartear deriva de lagarto, que é um mestre nessa arte, de curtir toda vitamina D que um dia ocioso de sol proporciona.

         Há privilégios que só quem pratica a lagarteação é digno de receber, quem lagarteia, ganha o direito de observar o movimento das nuvens no céu, de perceber a formação do bando de passarinhos, de sentir o vento no rosto, de acompanhar o voo das borboletas, só quem lagarteia tem os privilégios de lagartear.

           Aprender a apreciar esta arte é algo de grande valia, lembro que na adolescência passava tardes e mais tardes jogada com minhas amigas lagarteando, onde quer que fosse, e lagartear é muito mais do que estar jogado em qualquer lugar, lagartear é comunhão, com os amigos, com a natureza, consigo mesmo, é se dar ao luxo de usufruir o ócio.

         Lagartear é desligar o chip, ficar off line, não existem sefies de quem lagarteia, não existe check-in de onde se lagarteou, é praticar auto ajuda silenciosa, é uma sessão de análise, é oportunizar que os sentimentos se organizem, que as angústias se dissipem, é acalmar o coração e renovar a alma. Lagartear não tem contraindicação, só faz bem e não custa nada, mas é uma arte, e como toda arte, exige prática e dedicação.


Camila Amaral

Sobre Camila Amaral

Não tenho uma história bonita pra contar, de que comecei a escrever poesia com nove anos, ou que respiro porque escrevo. Sempre gostei muito de ler, e sempre gostei muito de contar histórias, mas escrever, escrever mesmo, só se tornou recorrente quando me prontifiquei a materializar esse projeto, que hoje é meu, mas também é das minhas amigas, que tanto insistiram e me fizeram prometer que ele existiria. Mas vejo, nesse pouco tempo, que comecei a passar minhas ideias e histórias para o papel, como isso tem me feito bem, e tem me ajudado nessa busca diária de me tornar um ser humano melhor, mais cheia de alma, e mais cheia de calma, percebo como isso tem me feito enxergar o que antes não via, e observar o comportamento das pessoas infinitas vezes mais que antes. Meus escritos sempre tem muito de mim, mas também tem muito do que eu observo, ouço, aprecio e absorvo por aí, um pouco fruto da realidade, um tanto fruto da imaginação. Designer de Moda por formação, sempre pronta pra me reinventar e começar de novo, graças a Deus ideias e sonhos não tem prazo de validade, e nem limite de utilização. Sou privilegiada pelas muitas “famílias” que tenho e que ganhei ao longo dos meus vinte e poucos, me sinto especial quando percebo o tanto de gente incrível me rodeia, e são esses seres mágicos, os lugares, os cheiros, gostos, os sabores, as dores, e as alegrias, os sonhos e as realizações, o dia-a-dia e o excepcional que me inspiram e servem como fonte infinita para escrever e contar pra vocês um pouquinho de como eu enxergo esse mundão.

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